Reunião Preparatória dos Estados Gerais da Psicanálise de setembro

Claudia Roberta de Araújo Gomes

Para onde nos conduz o fim de análise?


    Este foi o tema instigante do trabalho apresentado pela Psicanalista Ana Beatriz Zuanella Cordeiro , na 9ª Reunião Preparatória dos Estados Gerais da Psicanálise, realizada pelo grupo de Recife, em seu encontro mensal, no dia 26.09.2005, na sede do Circulo Psicanalítico de Pernambuco - CPP.

    O trabalho trata de uma difícil questão imputada aos analisandos e analistas que é a do Fim de Análise. A autora refere que ao abordar a temática pretendida, o título do escrito apenas foi dado após a finalização do texto, visto que falar do fim dialeticamente é remeter-se ao início. E como se inicia um processo analítico? Através da demanda que é feita pelo analisando, que traz o seu sintoma - o mal-estar que se impõe ao sujeito e o interpela à ação, produzindo impossibilidades à vida - e o transferindo para a figura de seu analista, que termina por ser o destinatário e a causa deste, sendo a esta figura creditada a fantasia de 'possibilitar' a saída ao que a vida anda impedindo. Instalada a relação transferencial, o analista toma o lugar do sintoma e do amor de transferência, sendo assim iniciado esse processo. Terminável ou Interminável? O trabalho nos remete a uma reflexão positiva e otimista acerca deste questionamento, lançando um olhar sobre as possibilidades criativas que os caminhos dessa finalização pode (e deve) produzir no analisando, que para a autora se diferencia da abordagem não tão promissora abordada por Freud quando do seu texto Análise Terminável e Interminável.

    Após o final da leitura, a autora abriu a discussão apontando para a dificuldade em falar sobre Fim de Análise. Explicita que foi buscar naquele texto freudiano as reflexões construídas por Freud acerca dos impasses com os quais o sujeito se depara, acreditando que há nesse texto um enfoque diferente para a questão da Feminilidade. No entanto, aponta que tal texto parece indicar um caminho pessimista em relação ao Fim. E o seu contraponto nesse trabalho é demonstrar que o confronto deste Fim não é tão negativo e deve ser visto como algo criador, produzido através de uma morte simbólica.

    Algumas questões interessantes foram colocadas pela platéia para reflexão no grupo.

    A idéia da intersubjetividade como o que se passa no entre-2 da relação analista-analisando, que dependerá de como o analista conduz a análise, não tomando para si o lugar do 'sabe tudo'.

    A aproximação do Fim com a questão da autoria e da criação, visto que o analisando carrega a ilusão do 'para sempre', do 'interminável'; e nos dividimos porque sabemos também de uma 'finitude' com a qual nos deparamos. Na autoria, se assume uma posição de finitude. O processo analítico tem seu tempo que remete a autoria e criação de um estilo. Quando a análise chega a um momento em que um estilo próprio do analisando se define, se cria, este sai de uma relação especular com a figura do analista. O analista é um investigador e cabe ao analisando se identificar com este trabalho investigativo no final de análise. Nesse sentido, há algo da Função Paterna aí atravessado, algo do Nome do Pai na função da autoria.

    Nesta questão da Autoria, algumas observações foram direcionadas a questão do que criar neste Fim: o analisando busca ser 'autor de sua própria vida', direcionando para uma vida mais criativa, para algo 'novo', uma invenção, uma criação, uma vida livre (sem cair numa forte idealização); mas uma vida que vale a pena ser vivida, saindo da posição do Grande Outro para incluir aspectos mais corriqueiros do viver. A 'cura', portanto, incluiria esse outro caminhar.

    Apesar da construção do luto que todo Fim implica, a idéia central é de há restos que precisam ser elaborados... e este resto transferencial que fica - o algo não simbolizável e não assimilável - é que mobiliza o sujeito à produção, à criação, à invenção, possibilitando o que a vida antes do processo analítico tão fortemente impedia.

"a hora do encontro é também despedida,
a plataforma dessa estação é a VIDA..."
(Milton Nascimento)


PRESENTES:
    Alexandre Pedrosa
    Amanda Lyra
    Ângela França
    Ana Maria Galdo
    Anna Paola Cosentino Ferreira
    Antônio Ricardo
    Arlinda Martins
    Berta Guedes
    Bruna Vaz
    Clarisse Cavalcanti
    Claudia Roberta de Araújo Gomes
    Deborah Foinquinos
    Gertrudes Montarroyos
    Graciema Lemos
    Ivo de Andrade Lima
    Katarina Kehrle
    Luciana Farias Maia
    Maria Carolina B. Gomes
    Maria Faniela Santos
    Marina Cunha de Oliveira
    Neide Braga
    Patrícia Soares
    Paula Magalhães
    Rafaella Cursino
    Regina Campello
    Rosa Pereira
    Sheila Carvalho
    Suzana Silveira
    Zélia Ferreira

APRESENTAÇÃO e COORDENAÇÃO:
    Ana Beatriz Zuanella Cordeiro