Introdução

Ana Maria Continentino

A obra de Derrida se constrói na exposição da tensão presente a todo pensamento que se arrisca trabalhar na exigência de um ponto máximo de extremação. Tensão esta que se impõe para ele como o mais constitutivo, a própria essência do pensamento. Tensão que ele nomeou différance1. Tendo-a em perspectiva, Derrida penetra a obra de alguns pensadores para exibir, não sem violência, a tensão que nelas se abriga, ou melhor a tensão que elas conseguem provocar.

Nosso interesse é examinar a questão da diferença sexual no pensamento de Derrida, levando em conta as duas conseqüências que a abordagem deste tema tem na sua obra: aquela que implica uma postura renovada da questão específica da diferença sexual e a que reafirma a desconstrução que ele realiza da própria idéia de diferença. Efeitos inseparáveis, que constituem a trama característica do pensamento derridiano. Como horizonte último, pretendemos defender, com Derrida, que uma análise mais profunda do que está implícito na questão da diferença sexual nos leva a requisitar, não só em relação ao sexual, mas também em outros campos do pensamento e do comportamento humano, um "mais além" do aprisionamento no dois, na diferença opositiva.

As duas vertentes que destacamos têm em comum o projeto de se debruçar sobre o modo de operação derridiano, tendo em perspectiva a tese, que acreditamos seu pensamento permite, de que há um ponto onde todos os campos abertos pela produção humana se indiscernem. Este lugar seria aquele de exposição máxima, desnudamento, justamente da tensão que com Derrida, supomos, ser a fonte de todo pensamento, de toda criação.

A partir da indicação deste lugar, Derrida transita por estas produções situando e respeitando as suas singularidades, ao mesmo tempo pontuando que não há fronteiras rígidas entre elas. Foi justamente esta posição derridiana de suspensão das fronteiras que nos levou a elegê-lo como interlocutor em relação à questão central para a psicanálise, a diferença sexual. Fomos levados pelo interesse de abordá-la mais amplamente e conhecer suas possibilidades de desdobramento e influência em campos outros que não o psicanalítico.

Psicanálise e filosofia são, portanto, os campos que vamos percorrer com Derrida, na busca de uma renovada abordagem do sexual, da diferença sexual. Ele tem das questões psicanalíticas uma abordagem muitas vezes mais radical e ousada que as produzidas no próprio campo analítico. Sua incursão pela psicanálise se marca pelo desejo de busca do que esta apresenta de mais genuíno e pela denúncia do que põe em risco sua vocação mais original, segundo Derrida, seu poder de "pôr em crise": "É no seu poder de 'pôr em crise' que a psicanálise está ameaçada e entra então na sua própria crise."2

Defendemos que esta tensão que se tematiza em Derrida é o que impulsiona a aventura freudiana, produzindo conceitos que a expõem, mesmo que às vezes de forma um tanto contraditória, sem no entanto recalcá-la. O pensamento último freudiano, que resultou na conceituação da pulsão de morte, é a expressão mais radical desta tensão. O "mal-estar"3 que a partir daí Freud sinaliza, já estava presente determinando todo seu percurso. Sabemos, no entanto, que este pensamento que exacerba o conflito muitas vezes se vê na defensiva diante de sua própria radicalidade.

Quando falamos em conflito, estamos conceituando um campo de forças, onde tendências diferentes tentam se impor, e lembrando que nunca foi fácil para o homem a exposição de sua divisão, parcialidade, sendo a história do pensamento muito mais a história da denegação desta condição do que seu enfrentamento. Denegação que não é particular a nenhuma área específica do conhecimento mas que, nos permitimos dizer, caracteriza os que não se submetem a ela como os que traçam as aventuras mais inovadoras em cada uma delas.

O conceito derridiano de différance nos parece essencial para um trabalho de rememoração, como diria Freud, onde os impasses que tecem qualquer produção humana possam ser pensados num nível em que não se tenha o recalque ou a denegação como único destino possível.

Se Derrida nos leva a uma leitura da diferença sexual menos inibida do que muitas posições ditas analíticas é porque, ele nos diz, encontrou no próprio pensamento - não gostaríamos de falar em filosofia já que ele não se reconhece mais como um filósofo depois da sua proposta de desconstrução desta - a ferramenta que possibilita a sustentação dos impasses que se apresentam sem a busca precipitada de uma solução de compromisso para evitar a angústia que suscitam. "Aquilo que é o mais decidido, o mais firmemente decidido, é a decisão de manter na maior tensão possível os dois pólos da contradição."4

Em Points de Suspension, Derrida se refere à subversão que a psicanálise estaria devendo ao mundo. Está implícita nas suas palavras uma crítica ao campo analítico que rejeita quase sempre o gesto inovador de Freud se desviando de sua vocação crítica em nome de um desejo de adequação:

A psicanálise deveria obrigar a repensar muitas certezas, por exemplo reconstruir toda a axiomática do direito, da moral, dos 'direitos do homem', todo o discurso construído sobre a instância do ego, da responsabilidade consciente, a retórica política, o conceito de tortura, a psiquiatria legal e todo seu sistema, etc. Não para renunciar às afirmações éticas ou políticas, ao contrário, para o seu futuro mesmo. Isto não se faz nem na sociedade psicanalítica nem na sociedade tout court, em todo caso não ou o suficiente, não suficientemente rápido. Eis talvez uma tarefa para o pensamento. Nós vivemos todos, em relação a isto, numa dissociação cotidiana, terrível e às vezes cômica, nosso quinhão histórico o mais singular...5

Acolhemos esta chamada de atenção de Derrida. Vemos este nosso trabalho na intenção de se colocar na via por ele reclamada. Via esta também requerida pelo trabalho de repensar e reorganizar o campo psicanalítico promovido pelo psicanalista MD Magno, cujo pensamento seguimos e que pretende voltar a psicanálise à direção de sua mais legítima vocação. Tarefa infinita da psicanálise: o desrecalque do que quer que se oponha ao livre fluxo do pulsional.

Uma tensão específica está presente como pano de fundo deste nosso trabalho: a tensão entre psicanálise e filosofia. Ela nos espreita durante todo o percurso. No último capítulo, trataremos dela especificamente mesmo que de modo não exaustivo e sabendo que a questão é infinita, e muitas são as maneiras possíveis de retomá-la.

Re-sexualizar o discurso filosófico é outra proposta de Derrida que se aproxima do nosso tema. Entender esta re-sexualização depende de entendermos como ele trata a questão da diferença sexual. Pensamos que ela não se aproxima da proposta de muitos que integram o pensamento da filosofia da diferença que caracteriza a contemporaneidade, pois a re-sexualização em Derrida não se aproxima simplesmente de um voltar-se para o feminino, por exemplo. Ele é justamente o pensador que, acolhendo o alerta de Heidegger, nos lembra o efeito enganador que uma simples inversão promove.

Re-sexualizar o discurso filosófico consiste, para ele, em contaminá-lo com toda a complexidade que o sexual tem. Complexidade para a qual uma idéia de diferença como a que a metafísica concebe já não é suficiente. Complexidade que Freud surpreendeu como singular e que o levou a exigir para ela a abertura de um novo campo.

Por isso, interessa-nos particularmente o pensamento de Derrida, onde vemos presente toda a riqueza e potência de uma lógica que chamamos do sexual. A re-sexualização derridiana se faz em sintonia com um questionar a diferença sexual nos lugares onde geralmente ela é encontrada. A denúncia do falogocentrismo6 implícito na neutralidade do discurso filosófico, sem promover um simples elogio ao feminino, mas contaminando o texto com toda a complexidade que o sexual oferece, eis, em resumo, a proposta que nos seduziu no discurso da desconstrução.

Discurso que tem como motivo constante de crítica e desejo de deslocamento, o falogocentrismo característico da filosofia clássica. Falogocentrismo que, uma vez abalado, faz ressoar seu efeito desestruturante por todas as premissas que sustentam este pensar (metafísica). Demover este falogocentrismo participa do projeto derridiano de liberar o pensar de qualquer significado transcendental que pretenda, sobre ele, exercer uma hegemonia - desejo maior e fantasia desencadeadora daquilo que reconhecemos como a metafísica. Liberar o pensar de qualquer regência por um significado transcendental coloca a disseminação como sua principal vocação: a produção constante de novas questões como o mais genuíno do pensamento.

Nosso interesse, portanto, é o de acompanhar os desenvolvimentos que a diferença sexual traça na obra de Derrida, num percurso que, ao explorá-la, lança-a numa outra dimensão, onde ela, a diferença, se desregionaliza e passa a determinar a produção de uma série de indagações não apenas restritas ao âmbito da sexualidade, entendida numa dimensão limitada, mas onde o próprio sexual amplia seu alcance, confirmando o gesto freudiano de abertura de um novo campo de ação e de investigação do humano. Neste desenraizamento está nosso maior interesse, pois ele renova a potência do sexual, quase sempre minimizada, inclusive pela própria psicanálise.

Em Points de Suspension, no texto da entrevista Chorégraphies7, numa discussão que tem como pano de fundo o feminismo, temos de forma resumida não só um mapeamento da posição de Derrida em relação à questão da diferença sexual, como também a apresentação das coordenadas que orientam sua postura. Postura, insistimos, que tem um efeito desestabilizador sobre verdades cristalizadas a respeito da diferença sexual. Derrida aponta que este seu movimento foi possível a partir de indicações colhidas na obra de Heidegger, especificamente no conceito de Dasein e no pensamento da diferença ontológica. Neste contexto mesmo, ele ressalta o surpreendente desta sua decisão, pois justamente Heidegger nunca se interessou pela sexualidade e poucas vezes fez desinteressadas críticas à psicanálise. No entanto, seu pensamento, afirma Derrida, permite uma apreensão do sexual para além dos limites que classicamente desenham este campo.

Ao seguir os passos de Heidegger na conceituação do Dasein, na sua analítica existencial, no pensamento da diferença ontológica que ela instala, Derrida vislumbra a chance de abertura de uma outra dimensão para o sexual. A tese que defende, primeira inspiração para o trabalho que desenvolveremos, pode ser anunciada assim: o pensamento de Heidegger nos conduz a um tratamento da sexualidade que não remete à dualidade sexual referida à diferença entre os gêneros. Principalmente, este pensamento tem como efeito retirar da própria diferença o fechamento apenas no binário.

Na defesa desta tese e apostando nos efeitos secundários que ela engendra estabelecemos o seguinte plano de trabalho. Primeiro, acompanhar a desconstrução promovida na idéia clássica de diferença que a abordagem da diferença sexual por Derrida promove. Para tal, vamos acompanhá-lo num percurso que filia Heidegger, Nietzsche e Platão a um mesmo movimento. Segundo, acompanhar a desconstrução da idéia de repetição através da abordagem do pensamento freudiano, movimento fundamental para um entendimento renovado do pulsional e portanto do sexual, em Derrida. Este percurso, que se estende da filosofia à psicanálise, pretende expor as ferramentas derridianas. Primeiro, as colhidas no pensamento filosófico e, segundo, aquelas que a psicanálise disponibiliza: vemos aí se efetivar o enlace entre a questão do próprio (pulsão de propriação8) e a diferença sexual, ou melhor entre pulsão de propriação e pulsão de morte.

Por último, como já colocamos, projetamos iniciar um entendimento do que foi o motivo primeiro para escolha deste projeto: a tensão sempre existente entre psicanálise e filosofia. Campos que se questionam incessantemente e cuja fronteira não se constitui num tracejado claro, mas na infindável série de provocações que um exerce sobre o outro. Tensão que, como veremos, presente desde a abertura deste novo campo - a psicanálise - se impõe como desafio de renovação para ambas as áreas de produção.

Vemos esta tensão tomar forma no pensamento derridiano através da definição da pulsão como "pulsão de propriação", aquela que expõe o pulsional mais radical, pois não só apreende o movimento que o caracteriza como exibe sua condição de possibilidade. Apoiado em Freud e Nietzsche, Derrida defende o pulsional como o impulso de apropriação, de nomeação, de dominância que define o movimento inarredável e incessante do desejo. O próprio que o pulsional nos lega é, em Derrida, a posição mais extrema e possível de apreensão deste. Posição que lida incessantemente com o impossível que a limita, horizonte inalcançável que, na imanência do pensamento, afirma-se enquanto alteridade, disseminação, infinita possibilidade, o jogo da différance.

A diferença sexual, quando associada a este movimento, perde sua estrutura opositiva e passa a participar da disseminação que o pulsional invoca. A relação da pulsão de propriação e da pulsão de morte freudiana, esta tomada na sua versão radicalizada como o faz MD Magno, será o cenário de aproximação e discussão da tensão entre psicanálise e filosofia.

Nosso primeiro movimento corresponde ao primeiro capítulo onde abordaremos a leitura derridiana da diferença sexual em Heidegger, Nietzsche e Platão. Como veremos, através de Heidegger, Derrida apreende a possibilidade de pensar a diferença sexual num nível onde é possível concebê-la para além da oposição. Uma nova hierarquização se impõe passando a diferença sexual a operar no nível do ontológico, e não apenas no nível ôntico. Com este deslocamento, a sexualidade passa a participar da disseminação originária, vocação primordial do Dasein.

Em Nietzsche, Derrida também colhe um rompimento do sexual com o par opositivo e é principalmente através dele, que anunciará a associação entre a pulsão de propriação, o pulsional na sua radicalidade, com a questão da diferença sexual. Em Nietzsche, não se trata mais de uma relação com a diferença postada num nível hierárquico mais alto, mas sim de que um dos elementos da oposição homem/mulher propõe na lógica de sua operação um estilo que não pode ser definido como o que classicamente é apreendido, no caso, como feminino. A mulher que não se deixa tomar pelo discurso opositivo é aquela que define a operação feminina como: indecidível.

Se a mulher é compreendida por esta outra lógica, isto rompe com a possibilidade de conter o que é sexual dentro dos limites classicamente estabelecidos. Este rompimento indica uma pluralidade nos modos de operar sexuais que escapam também do ciclo opositivo. A diferença fora deste círculo rompe com a dialética e se firma como pura afirmação das singularidades.

A operação que singulariza a abordagem derridiana de Nietzsche está ligada, portanto, à associação que ele explicita e enfatiza entre a diferença sexual e a questão do próprio em Nietzsche. Associação que potencializa ambas as questões e representa uma subversão em sua abordagem.

Khôra, terceiro gênero, requisita a concepção de um novo espaço que, distante do modelo metafísico, se definirá como espaço de puro acolhimento, pura afirmação, onde a idéia do ser como evento, acontecimento encontra guarita. Este lugar ainda feminino, mas apenas no sentido de nos reportar ao sexual, é o lugar onde Heidegger, Nietzsche e porque não, diz Derrida, Platão, sonham uma possibilidade plena de pura inscrição, afirmação, acolhimento do que há, do que se faz como acontecimento, muito antes da precipitação das ordens sintomáticas.

No segundo capítulo, partimos do desvendar da trama dos conceitos psicanalíticos defendendo que ela se tece com o mesmo fio das produções derridianas para finalizar concebendo o sexual como a rede que é a condição de possibilidade de todas as transações que constituem o humano. Transações que, para além do binário, se reinventam numa pluralidade que inscreve o múltiplo na diversidade das suas conformações.

Pretendemos mostrar que a contaminação do discurso derridiano pelo pensamento de Freud se faz pela identificação de um sexual que não se deixa definir pelas concepções que mais ordinariamente se colocam. Antes de tudo, a aventura freudiana é a de definição de um sexual que o pensamento ainda não havia captado. Sexual que, uma vez detectado, passa a ser definido como aquilo que propicia a experiência que mais genuinamente qualifica o humano. Marca que exibe sua presença em todas as ordens por ele instituídas. Defendemos que o pensamento derridiano se deixa impregnar pela lógica que o sexual freudiano estabelece. Esta lógica ele a faz cada vez mais presente a cada novo lance que estrutura seu pensamento sobre a diferença sexual.

Mais especificamente, na leitura derridiana de Freud, quisemos dar relevância à desconstrução que ele empreende da "repetição" freudiana (compulsão à repetição) da qual resulta a definição da pulsão como pulsão de propriação. Movimento de invaginação, ousamos dizer: uma vez contaminado pela sintaxe engendrada por Freud, Derrida volta-se para este na requisição de um "mais além" que Freud acena mas deixa escapar. Derrida colhe no conceito de repetição elaborado no Além do Princípio de Prazer, de Freud, num passo permitido mas não presente neste, a possibilidade de estancamento do processo dialético - o qual diminui a virulência do pensamento - e a chance de nomeação da condição de possibilidade do pulsional. Para além do processo dialético, a nomeação desta condição de possibilidade é definidora de um sexual desembaraçado das capturas conteudísticas que necessariamente lhe advém. Sexual que passa a ser o cenário, a rede onde são tecidas, tramadas as operações que caracterizam o produzir humano.

No terceiro capítulo, temos o retorno inevitável à tensão que sustentou todo o movimento empreendido nesta dissertação. Nele pretendemos mapear algumas questões, possibilitando desenvolvimentos futuros.

Vamos concentrar nossa discussão sobre o que singulariza os campos da filosofia e da psicanálise em torno da pulsão de propriação derridiana e da abordagem que o psicanalista brasileiro MD Magno empreende da pulsão de morte que o leva a destacar a experiência traumática do pulsional, experiência sexual por excelência, como aquilo que define especificamente o humano.

A pulsão de propriação descreve o movimento pulsional em toda sua complexidade, mas para a psicanálise a ênfase no pulsional pretende destacar uma experiência anterior e mais radical que a da disseminação desejante. Para a psicanálise de MD Magno, a Nova Psicanálise9, o sexual é a experiência traumática - anterior e desencadeante do périplo incessante do desejo - de impossibilidade de se alcançar um gozo absoluto, que seria o estancamento absoluto do excessivo da pulsão. Gozo requerido de direito, mas impossível de fato. O desejo antes de tudo é desejo de impossível. Por isso mesmo desejo que se modaliza sob a pressão das mais diversas condições. Desejo de impossível que nos devolve à trama infinita do possível.

O tema da diferença sexual atravessa toda a produção derridiana. O recorte que fizemos privilegia a aproximação entre esta e a questão do próprio. Com isto, várias outras discussões não puderam ser abordadas, dentre estas, as que se deram entre Lacan e Derrida, onde este critica a postura falogocêntrica de Lacan, cuja teorização, segundo ele, trata o falo como significado transcendental. O que nos interessou, neste momento, em Derrida foi abordar a sua postura diante da psicanálise, seu rigor em querer dela destacar o que lhe é mais genuíno, e não as discussões com outros autores que podem ser vistas em outras oportunidades.

Por fim, gostaríamos de registrar uma certa errância que detectamos ao longo do nosso trabalho. Privilegiar um tema e se manter fiel a esta escolha quando se trata de pensar com Derrida, nos pareceu uma tarefa bastante complexa e nos vimos várias vezes escapando deste propósito. Estes desvios porém, trouxeram a experiência de que o pensamento que não se pretende mais metafísico se faz neste risco e se enriquece desta abertura.
1 - Não traduziremos este e outros termos derridianos seguindo orientação de Evando Nascimento: "a tradução destes termos (derridianos) será sempre problemática, alguns deles encontram palavras mais ou menos equivalentes em português, enquanto outros devem permanecer in-traduzidos, aproximadamente pelas mesmas razões que se evita cada vez mais na França traduzir o Dasein de Heidegger. Antes de tudo para evitar destruir o jogo textual de partida, que se reduziria a mera formulação conceitual." Nascimento, Evando. Derrida e a literatura. Niterói: EdUFF, 1999. p. 89 Quando citarmos textos onde estes termos estiverem traduzidos, seremos fiel ao texto, colocando entre parênteses o termo em francês.
2 - DERRIDA, Jacques. États d'âme de la psychanalyse. Adresse aux États Généraux de la psychanalyse. Paris: Éditions Galilée, 2000. p. 69
3 - O "Mal-estar" freudiano é a expressão de um conflito sem solução no homem, dividido pelas exigências feitas pelas pulsões e as colocadas pala cultura. Estamos generalizando o sentido deste conceito.
4 - DERRIDA, Jacques. "Dialangues" - entretiens avec Anne Berger. In: Points de Suspension - entretiens. ps. 141-165. Paris: Éditions Galilée, 1992. p. 160
5 - DERRIDA, Jacques. Desceller ("la vieille neuve langue"). In: Points de Suspension - entretiens. ps. 123-140. Paris: Éditions Galilée, 1992. p. 136
6 - Termo cunhado por Derrida, onde o falo associado ao logos denuncia a metafísica como o pensamento que se faz sob a determinação destes dois conceitos. Superar a metafísica, para ele, significa: a denúncia desta regência e o apontamento da possibilidade de deslocamento em relação a ela.
7 - DERRIDA, Jacques. Chorégraphies. In: Points de Suspension - entretiens. Paris: Éditions Galilée, 1992. ps. 95-114.
8 - Pulsão do próprio, de propriação, apropriação é como Derrida nomeia a pulsão mais radical, aquela que exibe a condição de possibilidade do pulsional. O seu pulsar. Nomeação que desliza por toda série que captura os diversos momentos deste movimento: apropriação, expropriação, nomeação, dominância, mestria...
9 - Nova Psicanálise, como MD Magno nomeia a reformatação por ele promovida desde a década de 80 no aparelho teórico-clínico da psicanálise (Freud e Lacan).