O II Mundial dos Estados Gerais da Psicanálise no
Rio de Janeiro: Império ou Multidão?

Glaucia Dunley

Por tudo aquilo que a psicanálise significa em termos de paixão, ato e pensamento para muitos, entre os quais me incluo, proponho-me a escrever algumas linhas sobre o Movimento dos Estados Gerais da Psicanálise às vésperas do II Mundial.

Os vários encontros dos Estados Gerais - dois mundiais e três latino-americanos- pretenderam desde 1998 levar a cabo uma reflexão sobre o lugar da psicanálise na cena contemporânea, a partir de uma revisão crítica e ética de sua postura solipsista ou auto-centrada, que a fez permanecer, com honrosas exceções, recolhida às instituições de psicanálise ou à solidão dos consultórios, no decorrer do século XX. Lugares estes onde reinou, muitíssimas vezes, uma soberana crueldade, com conseqüências óbvias e alastrantes para a clínica psicanalítica, para o convívio com as outras ciências e dos psicanalistas entre si.

A partir da necessidade desta auto-interpelação a propósito do que eles próprios teriam feito com o legado freudiano, psicanalistas de várias partes do mundo resolveram se pôr a pensar e a discutir, tentando resgatar o caráter crítico, rico e pulsante da invenção freudiana, que há aproximadamente cem anos havia ousado revolucionar o pensamento ocidental. Para isso, tiveram que ultrapassar diferenças de orientações, culturas, línguas, e, essencialmente, suas certezas em vias de petrificação. Esta palavra, revolucionar, remete à própria nomeação dos Estados Gerais da Psicanálise, referindo-se à importância do tiers-état (do povo) nas Assembléias dos Estados Gerais, que desencadearam a revolução francesa, e das quais também faziam parte o clero e a nobreza.

Sob as propostas críticas e revolucionárias deste Movimento, esta tripartição (povo, clero e nobreza) nos leva de imediato à questão de quem detém o poder, e de que poderes se trata ao se pensar numa revolução para a psicanálise. Aproveitando mais ainda a nomeação, se pensarmos que a relação entre saber e poder na psicanálise se estruturou de forma aristocrática e religiosa desde os seus primórdios institucionais, dando espaço para que saberes sacerdotais ou para que pretensos representantes do saber/direito divino se assentassem como saber instituído-poder constituído nas sociedades de psicanálise, seria realmente um grande desafio para este movimento fazer o Comum ou o "povo" psicanalítico se dar voz . Pois ele se propôs justamente a isto, ao criar a sua regra fundamental: cada analista fala em seu próprio nome. Ou seja, não delega nada a ninguém, nem se faz representar.

Em 2000, por ocasião do 1o Mundial dos EG em Paris, foi possível fazer a aposta de que aquele Encontro-Acontecimento para a história da psicanálise estaria depondo a soberania do saber psicanalítico, ou seja, o saber psicanalítico como Um, e, por conseguinte, provocando a derrocada de qualquer efeito imaginário de que este saber-poder fosse detido por um ou por alguns. Abriram-se com isso muitos caminhos possíveis; entre eles o de se estabelecerem livremente as formas de agregação de uma Comunidade Psicanalítica Internacional, democrática, plural, capaz de uma prática política livre dos jugos das sociedades de psicanálise, e que, entre outras coisas, tentaria barrar ao máximo o retorno de uma psicanálise que insistisse em se reafirmar como poder totalitário. Deste modo, o Movimento dos EG parecia relançar o empreendimento freudiano naquilo em que ele é um empreendimento rico e generoso, ao dar aos homens instrumentos capazes de diminuir a sua "miséria erótica", começando a transformação em sua própria casa, a partir desta nova posição: analistas instituíntes (e não instituídos) que falam em seu próprio nome, e que não estão pretensamente garantidos/subjugados por alguma sociedade de psicanálise. Analistas instituintes produzem um saber instituinte, que é Comum, circula e tem efeitos, realizando o poder constituinte deste movimento. Poder que revoluciona, que nos arranca de nós mesmos na direção do outro, seja ele nosso colega, nosso cliente ou um outro saber. Sem mistificações ou apoderamentos, permitindo diferenciar, neste movimento, potência de poder (Macht de Gewalt). As repercussões éticas deste acontecimento entre psicanalistas e na clínica são extraordinárias, como se pode facilmente imaginar, pelo simples fato de que a psicanálise passa então a poder assumir os seu devires ético e político, libertadores.

Entretanto, constatou-se desde aquele primeiro Mundial que, junto com o novo - também neste movimento - conservava-se o antigo, o reacionário, ou, se preferirmos, o monárquico, o Imperial, que ressurgia diante da potência da Multidão (compreendida como um coletivo de multiplicidades/singularidades), expressa pelos 2000 psicanalistas presentes em Paris: a representatividade do dispositivo leitor, através do qual psicanalistas determinados tomavam para si a tarefa de fazer uma "leitura" do trabalho de 20 ou 30 colegas, contrariando o funcionamento da única e fundamental regra dos EG: cada analista fala em seu próprio nome.

Continuando a aproveitar a retórica política de Antonio Negri, ironicamente a estrela internacional convidada pelo midiático II Mundial dos EG, a representatividade cassa (no sentido doloroso brasileiro de privar um sujeito de seus direitos políticos, e no sentido francês de casser/quebrar) a potência da multidão.

Em "O poder Constituinte", que é o poder que nos interessa, o poder da vida e não o do controle sobre ela (biopoder), Negri elabora uma democracia sem representatividade, única forma da multidão poder agir politicamente. Ela comporta, como é de se esperar, o dissenso e a disrupção como formas legitimas de existir da Multidão enquanto multiplicidade de singularidades, retirando-as assim de um inferno paranóico onde o outro afinal não pode jamais ser outro por que ele é sempre hostil. Esta é a forma de agir do Império, ou talvez a forma mais antiga ainda da monarquia, como nos mostra até agora a história dos EG. Historia esta que apela paradoxalmente para Napoleão, que se sagra imperador traindo a revolução, e para o tiers-état, a Multidão, que insiste, fazendo resistência.

Exemplo primoroso de que a Multidão resiste são os Encontros Latino- Americanos para os Estados Gerais da Psicanálise, modo de funcionamento interativo que acolhe o outro na sua palavra, sem mistificações e sem efeitos midiáticos, e, portanto, sem preços absurdos que colocam de fora estudantes, assim como nossos pares e ímpares menos ricos. Interessante constatar que esses encontros foram considerados preparatórios para possíveis outros mundiais, mas são eles -e a evidência assim o mostrou- que possuem a potência da Multidão, haja visto os dois ocorridos em São Paulo, e principalmente o de Buenos Aires em outubro passado, onde as contradições deste movimento se mostraram a céu aberto, encarnando-se nas preocupações sobre este II Mundial cuja organização se propunha a repetir os pontos fracos do I Mundial em Paris: o dispositivo leitor e o elevado preço das inscrições. E está repetindo, apesar da resistência. Razão pela qual não estou inscrita, embora seja participante do Movimento desde 2000.

Trata-se de perguntar se estas duas formas simultâneas de existir da psicanálise, desveladas publicamente pelo Movimento dos Estados Gerais, ou seja, a forma Imperial e a da Multidão - sendo a primeira auto-centrada e deliberadamente solitária, tentando controlar as formas vivas ou constituintes da Multidão - podem se separar, ou se permanecerão coexistindo como uma tensão sem resolução.

No bojo desta questão, levanta-se uma outra questão espinhosa, ou impossível, de se é possível haver poder constituinte sem que este apele necessariamente ou gere um poder constituído, o que nos desafia a pensar através de que formas ou por que "meios indiretos" -para usar a expressão de Freud na carta a Einstein ao fazer referência a Eros- poderíamos privilegiar a Multidão, sempre mais.

Lembro, para finalizar, que é um desafio para nós, psicanalistas do século XXI em um mundo globalizado, transformar a psicanálise num projeto Comum.

Glaucia Dunley
Psicanalista