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A dança dos conceitos

Virginia Portas

Resenha do livro: Ensaio sobre a criação teórica em Psicanálise. De Ferenczi a Nicolas Abraham e Maria Torok - Autor: Fabio Landa - Editora: Unesp e Fapesp (1999)

A escrita clara e até descontraída de Fabio Landa não dissimula a complexidade com a qual se depara o leitor de Ensaio sobre a criação teórica em Psicanálise: de Ferenczi a Nicolas Abraham e Maria Torok, devida justamente à originalidade e à riqueza conceitual da obra dos autores em questão. Se Ferenczi é a referência teórica necessária, acessar os densos universos metapsicológicos de Maria Torok e Nicolas Abraham, requer acompanhá-los também através do que nos leva para além dos limites do livro. Na verdade, somos instigados a isso.

Entre tantas, duas questões chamam a atenção logo na introdução. A primeira fala do poder iatrogênico da Psicanálise, ou seja, da possibilidade da teoria ganhar uma tal espessura, a ponto do analisando se tornar uma ficção teórica do analista: "a espessura teórica do pensamento do analista funciona como uma verdadeira parede". Esta problemática nos leva inevitavelmente à segunda questão magistralmente exposta também na introdução. Ela vem com a citação de um trecho do livro de Elias Canetti, Massa e Poder, que aborda a questão do medo de contato com o inesperado, o medo do súbito, que provocaria além de uma fobia de contato, uma reação quase que imediata de classificação. Exige, pois, uma prótese teórica. Um álibi para acomodar a razão. A Medicina seguiria esta "tradição", aliás, um risco sempre permanente para a Psicanálise.

Medo de contato e barreira teórica são temas exaustivamente trabalhados por Ferenczi no decorrer da sua obra, quando destaca a questão da mentira e da hipocrisia profissional, avalista da atitude de neutralidade do analista, questões que se fundamentam na sua teoria do trauma.

Um atalho para a questão da espessura teórica desponta no capítulo final do livro quando é introduzido o conceito de anasemia - "produtos de de-significação que constituem figuras novas, ausentes dos tratados de retórica" -, um vigor que encorpa o sentido; e a questão da dicionarização, em que é analisada a questão do Vocabulário da Psicanálise, através da analogia com o ego e seu papel protetor.

O que é problematizado aqui é a questão da dicionarização e da atração que "os empreendimentos enciclopédicos e as atualizações exercem sobre os analistas". Em contrapartida, Abraham defende a idéia de que, ainda que exista uma organização conceitual da psicanálise, "ela não saberia revelar sua unidade segundo as formas de pensamento clássicas e sua apreensão requer uma dimensão nova que resta ser encontrada". Ou seja, se o discurso psicanalítico não se presta a um procedimento enciclopédico, presta-se ainda menos a uma tradução em qualquer outro discurso, portanto, "não devemos nos surpreender se o núcleo só pode se mostrar negativamente pela sua resistência em se dobrar a uma sistematização enciclopédica".

Clinica - Uma interessante analogia com a obra de arte é trazida por Abraham quando circunscreve o símbolo e sua operacionalidade - símbolo operante - como objeto da Psicanálise. Com isso ele a liberta de dogmatismo teórico e de qualquer tipo de psicologismo: "Permanece a idéia, sempre atual, que ao se deitar a obra de arte (e não o artista!) sobre o divã psicanalítico, acede-se à fonte propriamente dita de sua eficiência, à região inscrita nela onde o criador e o destinatário são um, porque eles se confundem aí, na intuição direta do ato de simbolizar. Falar a obra a partir do inconsciente que ela implica, dizê-la de maneira a erigi-la em paradigma concreto dela mesma, de maneira que só a partir desse discurso único ela possa ser, no limite, reconstruída sem resto - eis o que permanece a tarefa ideal de uma ciência tendo a arte por objeto. É a essa tarefa, infinita mas nada vã, que o autor se propunha a contribuir com uma primeira pedra".

Aqui o conceito de ressonância se encaixa na medida, já que conta a participação da "estrutura imaginal do observador", que se distingue radicalmente tanto do "Einfülung", marcado pelo subjetivismo, quanto da observação puramente objetiva. Quando a Psicanálise rompe tanto com o objetivismo quanto com o subjetivismo, seu método investigativo implica incluir na sua dinâmica a trans-objetividade bem como trans-subjetividade. Eis o fundamento do método transfenomenal de Abraham, tema desenvolvido num dos capítulos.

Criação - Entendo que um traço de saudável rebeldia liga Maria Torok e Nicolas Abraham a Ferenczi, quando adotam uma atitude particular de pesquisa que os afasta das correntes dominantes do movimento psicanalítico em sua época: a kleiniana e a lacaniana. Se a referencia investigativa privilegia a clínica, só ela justifica as diferenças e sutilezas teóricas que marcarão o estilo desses três autores. "Pensamos que nenhum analista pode escapar num momento ou noutro, à necessidade de criar sua própria teoria. A maioria recusa essa eventualidade", reconhece Landa.

É com rigor e preciosismo que Landa acompanha em ziguezague os remanejamentos de conceitos clássicos ferenczianos, como o de introjeção, incorporação, símbolo etc., até a criação de uma nova figura da metapsicologia: a cripta. O caminho que estabelece a distinção entre "introjeção de pulsões" e "incorporação de objeto", é percorrido minuciosamente, nos introduzindo no universo de pesquisa de Torok e de Abraham, até a afirmação radical de que "todos os conceitos psicanalíticos se reduzem a estas duas estruturas, aliás complementares: símbolo e anasemia".

Se, como diz Landa, pode-se percorrer a obra de Ferenczi tendo por base o conceito de introjeção/projeção, para se percorrer a obra de Abraham e Torok, os mecanismos fundamentais de funcionamento psíquico são os conceitos de introjeção de pulsões e de incorporação de objeto. Para estes autores, "A introjeção procura introduzir no eu, ampliando-o e enriquecendo-o, a libido anônima inconsciente ou recalcada. Assim, não é o objeto que se trata de introjetar, mas o conjunto de pulsões e de suas vicissitudes, das quais o objeto é a ocasião e o mediador". Necessita, pois, de um encontro, e "a incorporação, propriamente dita", na sua "especificidade semântica própria, intervém no limite mesmo da introjeção, quando esta, por uma razão ou outra fracassa. Diante a impotência do processo de introjeção (progressivo, lento, laborioso, mediatizado, efetivo), a incorporação se impõe: fantasista, imediata, instantânea, mágica, por vezes alucinatória."

Mas, é o conceito de introjeção, entendido como modelo de funcionamento psíquico, a base sobre qual as reflexões teóricas se alinham. A introjeção considerada um processo primitivo e não originário, pressupõe interatividade e co-essencialidade, destituindo-se aí qualquer idéia de causalidade. Landa diz assim: "a introjeção concebida como processo seria a possibilidade de uma expansão do ego enquanto modelo interativo da passagem do auto-erotismo ao amor objetal", o que leva Abraham a concebê-la como o "processo que preside a problemática do fora/dentro. Estar em-si no-outro se torna pelo processo de introjeção, estar em-si no outro em-si".

Mas a idéia que está na base do pensamento de Ferenczi se concentra na origem do sentimento de onipotência, ponto de partida e motor do processo de introjeção, especificado passo a passo no texto ferencziano de 1913, "Desenvolvimento do sentido de realidade e seus estados", considerado por Landa o "momento crucial do pensamento de Ferenczi": "por fidelidade ao texto ferencziano, devemos, por ora, seguir os avatares da onipotência como os avatares da introjeção".

É nesse texto que Ferenczi se afasta da idéia de introjeção enquanto um processo puramente econômico, para situá-lo enquanto processo dinâmico, marcando assim um modelo de funcionamento psíquico que se confunde com o desenvolvimento do eu. Ferenczi vai se perguntar em 1913: "O que é Onipotência? É a impressão de ter tudo o que se quer e de não ter nada a desejar". É essa marca, paradoxalmente, que conduz definitivamente a voluptuosidade de um processo, já que nada a desejar pressupõe saciedade e o processo de introjeção se alimenta do amor à saciedade.

Portanto, desde o ponto de vista de um processo, o humano nasceria de uma situação de plenitude: nada a desejar e, nesse sentido, pleno, o que, segundo Ferenczi, se baseia num dado real de vivência no útero materno - sua quarta fantasia originária. Essa marca de realidade, paradoxalmente, une definitivamente o princípio de realidade ao princípio de prazer. Como afirma Landa, "Ferenczi fala de uma corrente progrediente que vai em direção à realidade e uma corrente regrediente que vai em direção à realização da onipotência incondicional", caracterizando aí a fala da dinâmica do processo: ziguezague. Contudo, ainda que a introjeção seja um processo ancorado na corrente progressiva, que vai em direção à realidade, e ainda que o acesso de mecanismos mágicos implique numa regressão, paradoxalmente toda tentativa que visa restaurar o sentimento de onipotência, impulsiona para a corrente progrediente: o apetite chega com fome e permanece. É a partir daí que se consubstancia a questão da voluptuosidade do processo defendida por Abraham. É ainda nesse sentido que a incorporação de objeto é um mecanismo de defesa, um mecanismo "mágico" já que a idéia de perda do objeto é incompatível com o sentimento de onipotência, se marcando pela realização alucinatória e pela magia de incorporação - pois simula uma introjeção.

É a partir dessa problemática minuciosamente percorrida, que Maria Torok desenvolve seu conceito de cripta - monumento ao objeto perdido restaurado magicamente - tema que merece um dos capítulos mais instigantes desse minucioso trabalho de Fábio Landa, permeado de fragmentos clínicos que, "apresentados de uma maneira muito sucinta, mostram o essencial, sem o exibicionismo e a pretensão de criar um novo caso princeps."

Virginia Portas, membro titular e coordenadora de ensino da Formação Freudiana

Publicada na Psychê no.9