Anorexia, uma estudo

Daisy Justus

O fato da anorexia e a bulimia terem se convertido em paradigmas da atualidade talvez se deva ao fato de estarmos, por força de uma pressão de mercado, tendo que responder freqüentemente a um ideal de completude, abundância e progresso, onde o valor de intercâmbio não é o que cobre a ordem do desejo, mas aquele que responde a ordem da necessidade.

Estes distúrbios da oralidade são a expressão do mal estar na cultura em uma sociedade consumista: onde impera o conforto e abundância, a anoréxica e a bulímica criam o desconforto e a falta. Elas "se consomem".

O mal estar na cultura torna explícito uma hermética dobradura entre necessidade, demanda e desejo, onde o sujeito assume no mercado o valor de mero objeto. Na clínica de pacientes com bulimia ou anorexia a queixa em relação ao corpo é um modo de presentificação, talvez o único possível, um posicionamento passivo em relação ao motivo pelo qual o sujeito sofre. Logo, não se dispõe a trabalhar sua angústia, por não se deixar enredar. Limita-se a focalizar, a referir seu sofrimento em relação a seu corpo.

Através do seu sintoma suporta sua identificação: "sou anoréxico", já que não se faz representar por significantes.

Scazufca enfatiza que, a seu ver, para a Psicanálise não existe a anorexia e a bulimia (e aqui inclui a obesidade), mas, sim, diferentes modos de ser anoréxico, bulímico e obeso. Embora se apresente com maior freqüência em uma determinada idade e com uma série de fenômenos conhecidos, isto não basta para estabelecê-las como mais uma estrutura. Essas manifestações intervêm de diferentes maneiras nas estruturas clínicas que conhecemos: neuroses, psicoses e perversões e a posição do analista será inferir a estrutura em que elas subjazem, uma vez que só dando prioridade a escuta e a partir da transferência se pode chegar a alguma conclusão. Em seu texto sobre a anorexia e a clínica psicanalítica Scazufca destaca "a complexidade que tem uma anoréxica singular: modalidades de satisfação pulsional, desejo, recolhimento narcisista, fantasias inconscientes, posição edípica e transferência." (Scazufca, 1998:22)

Ao sustentar-se no "sou bulímica" ou posicionar-se, no dizer da família, como "uma filha anoréxica", a jovem se faz representar sob um rótulo do qual ela toma propriedade. Conforme Hekier, este "eu sou..." é uma forma de situar precisamente o ser, de situar o gozo. "Tenho uma filha anoréxica" implicaria a vertente do ter e, em conseqüência, quem é assim "nomeado" é posicionado, e se posiciona, "graças ao Outro" (Hekier, 1996: 95). Cabe ao analista não repetir o dito, também situando sua cliente: "Tenho uma paciente anoréxica...". Através do poder incandescente que tem sua palavra, se arrisca a ouví-la a partir de uma suposta estrutura.

Nestes casos é necessário um amplo e paciente trabalho prévio para que o cliente se situe no nível do sujeito barrado e abandone seu posicionamento. O que implicaria, conforme Lacan em A Direção da Cura, numa retificação subjetiva (Lacan, 1998: 607), em fazer do seu sofrimento um enigma, em incluir-se na queixa que formalmente expressa.

O objetivo da anoréxica é criar uma separação, estabelecer uma distância, criar uma brecha no Outro, um desejo ao qual possa interrogar. Para a anoréxica há desejo, porém o Outro insiste em obturá-lo com a satisfação de uma necessidade. Para que se articule um desejo há que haver duas demandas, porém a mãe que empanturra não pede, nem deixa que a criança abra a boca para pedir.

Já que a Psicanálise radicalmente propõe uma clínica que escuta dizer, o de que se trata com relação às anoréxicas é esperar que essas bocas, até então forçadas a comer, traduzam em palavras seu sofrimento, ou seja, uma proposta de que o gozo ceda lugar ao significante. É preciso permitir que o sintoma fale.

"Encontra-se em um vínculo de repetições, sem vontade própria, totalmente alienado em uma relação que não pode interromper, como que respondendo a um mandato superegoico" (Scazufca, 1998: 23). Deste modo a identidade do sujeito com anorexia passa a ser composta pela comida, as dietas, o corpo e o peso, que por sua vez compõem a própria fantasmática dos pacientes, funcionando como uma amarração e estimulando então a fixação dessas posições subjetivas.

Já a bulímica coloca uma verdade em jogo, na sustentação da relação constante de vazio e de cheio. Incorpora para expulsar, mastiga para cuspir e, muito particularmente, come para vomitar. A proposta de controle da ingestão se coloca como um artifício de poder. Temos aqui as idas e vindas da perda e reencontro com o objeto a, como movimentos que se articulam no percurso pulsional. Deste modo, ao vomitar, mais do que provocar a expulsão para não engordar, ela expulsa o que foi incorporado, dramatiza a perda e o reencontro com o objeto a.

Uma criança amamentada pode ficar satisfeita sob o ponto de vista de sua fome fisiológica, porém manterá seu desejo insatisfeito. Ou seja, conservará o apetite do desejo. Para a Psicanálise, este apetite do desejo é um estado inerente ao ser humano, é permanente. A paciente anoréxica recusa este estado dúplice que reconhecemos na criança amamentada: satisfação da fome e insatisfação do desejo. Mantém obstinadamente sua insatisfação, tanto da necessidade fisiológica como do desejo, pois acredita ser esta a única forma de preservar seu ser. Assim sendo, não há pior proposta para um anoréxico do que querer alimentá-lo.

Paul-Laurent Assoun, em Freud e a Mulher, enfoca a anorexia como uma síndrome histérica que nos encaminhará para a perversão. Para ele essa síndrome exprime algo essencial da feminilidade. "O emagrecimento do corpo parece originar-se no "curto-circuito" da sexualidade com a função nutricional, segundo o esquema de Freud no seu primeiro dualismo pulsional... Daí a ética ascética do corpo." (Assoun, 1993: 117)

Assoun prossegue dizendo que "a anoréxica apresenta um espetáculo que responde à perplexidade de Freud, já que, em sua pretensão fantasística, ela é aquela que, por excelência, sabe o que quer... Na verdade, o que ela não sabe é que esse querer férreo se apoia numa negação do desejo. Donde a forma peculiar de Verleugnung (renegação) que confere a essa estrutura neurótica sua coloração perversa. O querer garante a presunção do saber absoluto, mas esse corpo subjugado constitui uma barreira para algo que não quer se expressar, que é o desejo pelo outro. " (idem: 118)

O emblema trágico da anoréxica é a imagem de um querer liberto do jugo do desejo. Em sua resposta terrorista à questão enunciada do tornar-se mulher, surge uma posição cujo imediatismo é assustador. Paga com o próprio corpo a tentativa de deter a marcha do desejo em direção ao Outro e recolher a demanda, bloqueá-la no próprio corpo. "É isso que confere ao sofrimento anoréxico seu valor de verdade. Pois esse "nada" a que ela reduz seu desejo, ela o produz com a energia de um querer totalitário." (idem: 119)

Lacan no Seminário 11 refere-se à anorexia mental ao descrever a operação de separação, a operação constitutiva do sujeito do inconsciente, em que o sujeito diante do Outro responde à falta com a falta. É o momento de fazer-se desaparecer frente ao enigma do desejo do Outro: "A fantasia de sua própria morte, de seu desaparecimento, é o primeiro objeto que o sujeito tem a pôr em jogo nessa dialética, e, com efeito o faz - sabemos disto por mil fatos, ainda que fosse pela anorexia mental." (Lacan, 1979: 203)

O sujeito é ser em nada (ser na morte) sob a forma do acting out ou da passagem ao ato, e o que irrompe após o ato é um encontro falhado, que bascula essencialmente fora da cena. Responde tragicamente à ignorância do Outro acerca de seu ser. Ainda em A Direção da Cura (Lacan, 1998: 634), ao relacionar a posição da anoréxica com o desejo, Lacan nos leva a deduzir que, ao recusar o alimento, ela sustenta uma verdade. A anorexia seria assim a expressão de um sintoma do desejo, de um desejo particular, um desejo de nada. (Hekier e Miller, 1996: 16)

E é neste ponto que o paciente não cede em sua determinação, é inflexível no intento de ser reconhecido no que há de mais além de seu ser tomado como objeto.

Estudando a anorexia, Éric Bidau cita Baudelaire: "A magreza é mais indecente que a gordura" (Bidau, 1998: 11). Em seu ar espectral, devido ao comprometimento da imagem corporal, a anoréxica emagrece até perder a forma que lhe é própria, arrisca a vida e denota um particular encontro com o Outro. Em lugar de expressar-se com palavras faz aparecer, escrito no corpo, como se tratando de uma metáfora, aquilo que não pode ser dito, seja porque é muito doloroso, seja porque lhe é desconhecido. Magreza que se faz signo, como aquilo que se "faz ver", que se expõe mudo ao olhar do outro. Faz signo, pede uma resposta, porém não se interroga.

É comum os pais de uma anoréxica dizerem: "Tem de tudo... o que precisa. Não lhe falta nada. Só precisa mesmo é comer um pouco mais...". Parece tratar-se da passagem do real de um corpo orgânico, de necessidades, a ser alimentado, ao corpo significante marcado por seu atravessamento feito pela linguagem.

Sabemos que a função paterna se encontra sempre debilitada na neurose e não atua com a suficiente intensidade para separar o sujeito do gozo incestuoso inconsciente com a mãe, ou quem cumpra esse papel, e deste modo seu desejo fica reduzido a necessidade.

Celina Miller lembra que sendo a neurose uma construção defensiva frente aos três enigmas que para Freud constituem os fantasmas originários: o fantasma acerca das origens, a sexualidade e a morte (a cena originária, sedução, castração), podemos concluir que a anoréxica nada quer saber sobre seus desejos. A partir daí, Miller cita Freud no Racunho L: "Pois as fantasias são efetivamente fachadas psíquicas construídas com a finalidade de obstruir o caminho a essas lembranças" (Freud, 1977, v. I: 336). Por trás dessas fachadas está a verdade inominável, a que poderia inferir-se ao que Lacan logo resgata na função do belo.

Vale lembrar que no seminário sobre A Ética Lacan fala de duas barreiras que separam do campo do desejo: a primeira é o bem, a segunda é o belo. Aponta que "a verdadeira barreira que detém o sujeito frente o campo inominável do desejo radical, na medida em que é o campo da destruição absoluta, da destruição mais além da putrefação, é, falando estritamente, o fenômeno estético na medida em que é identificável com a experiência do belo." A capacidade de ver o horror é equivalente a capacidade de criar beleza. Dito de outra forma, "o belo recobre aquilo de mais horrível há para o homem, qual seja sua relação com a própria morte". (Lacan, 1988: 354).

Continuando com Freud no Rascunho L (Freud, 1977, v. I: 336) sabemos que "as fantasias servem, ao mesmo tempo, à tendência de refinar as lembranças, de sublimá-las", ou seja, de embelezar as recordações pois, de outro modo, seriam insuportáveis. Expressa assim a intenção do processo de fantasiar.

Mais tarde, em Os Escritores Criativos e seus Devaneios (idem, 1976, v. IX: 158) Freud nos explica que o dom do poeta no processo criador é apresentar os sentimentos, as idéias e as verdades, que, expressados de outro modo que não o poético, seriam chocantes, inaceitáveis para o leitor.

O efeito do belo resulta da relação do sujeito com o limite, limite entre a vida e a morte. Entre duas mortes, como refere Lacan: a primeira, a morte natural, biológica; a segunda, aquela que a linguagem exige ao sujeito ter que dar conta daquilo que ele não é. O limite da segunda morte é então, para Lacan o fenômeno do belo (Lacan, 1988: 315).

Os personagens das tragédias gregas estão situados em uma zona limite entre a vida e a morte, e assim Antígona, um exemplo princeps, é situada por Lacan: "entre-duas-mortes". Em sua obstinação "leva até o limite a efetivação do que se pode chamar de desejo puro , o puro e simples desejo de morte como tal" (idem: 342), desejo que ela encarna em seu romance familiar. Lacan lembra que ela diz literalmente em um verso: Meu pai, por que me abandonaste?

À guisa de conclusão, colocamos a partir deste encaminhamento, a proposta de também abordar a questão da anorexia como uma demanda muda do olhar do pai. Se o que se coloca é a questão do belo, perguntamos: para quem se exibe a modelo magra que desfila nas passarelas? Que olhar de aprovação que ela busca, que está mais além de todas aquelas objetivas? Em vias de tornar-se uma mulher, com sua sexualidade nascente, ao separar-se do corpo familiar, os mistérios e horrores até então encobertos pelas "fachadas" se tornam explícitos.

Se como vimos acima a função paterna se encontra debilitada na neurose, fazendo com que o desejo seja encoberto pela necessidade, e sendo a falência desta função paterna uma das referências da contemporaneidade, talvez faça sentido a partir daí a proliferação dos transtornos alimentares na última década.

Se, por outro lado, abordarmos a cena em torno da refeição familiar, podemos perceber aqui a articulação entre o objeto oral e o objeto escópico. O ódio por essa mãe que devorou o desejo da filha, sustenta, conforme vimos em Assoun, a energia do querer totalitário. O que faltou, foi perceber na sua fantasia, o desejo do pai de lhe "devorar" com os olhos. Fantasia incestuosa, que Freud destaca em carta de 1932 à Marie Bonaparte: "A situação do incesto é exatamente semelhante à do canibalismo". A interdição ao amor levou à interdição ao alimento.

Terminamos repetindo ainda com Freud na abertura do texto sobre o inconsciente: "Como devemos chegar a um conhecimento do inconsciente? Certamente, só o conhecemos como algo consciente, depois que ele sofreu transformação ou tradução para algo consciente. A cada dia, o trabalho psicanalítico nos mostra que esse tipo de tradução é possível" (Freud, 1977, v. XIV: 191).

E-mail: daisy.justus@infolink.com.br
Bibliografia

ASSOUN, Paul-Laurent, 1993. Freud e a Mulher Rio de Janeiro: Jorge Zahar
BIDAU, Éric, 1998. Anorexia Mental, Ascese, Mística Rio de Janeiro: Companhia de Freud
FREUD, Sigmund, 1977 Rascunho L v. I, Obras Completas Rio de Janeiro: Imago
_______, 1976 Escritores Criativos e seus Devaneios v. IX, Obras Completas: Imago
_______, 1974 O Inconsciente v. XIV, Obras Completas: Imago
HEKIER, Marcelo e MILLER, Celina, 1996. Anorexia-Bulimia: Deseo de Nada Buenos Aires: Paidós
LACAN, Jacques, 1998 Escritos Rio de Janeiro: Jorge Zahar
_______, 1988 O Seminário, Livro 7 Rio de Janeiro: Jorge Zahar
_______, 1979 O Seminário, Livro 11 Rio de Janeiro: Zahar
SCAZUFCA, Ana Cecília, 1998 Anorexia-Bulimia: Sintomas de desejo in Pulsional in Boletim de Novidades São Paulo: Escuta, ano XI, número 106, fevereiro